Ao final de cada gesto, cada passo, cada sentimento, revigora-se o menino-homem. Menino na idade e na maça de seu rosto ainda juvenil, quase um bebê das fronteiras do sul; homem no comportamento intenso, de uma profundeza cultural, de um intervalo musical – um cerne incrivelmente humano, direitos humanos!
Ele, esse ser mais por demais, criatura de um Era que não é presente, nem passado, e tampouco futuro. Ele luta, luta na sua incerteza de uma certeza apenas sua, seja ela certa ou incerta, clara ou obscura, ele sonha, sonha com liberdade e calmaria. Os lentos passos em direção ao Oásis da alegria, alegria onde o som do violão faz o tempo eterno, sem as miudezas de um cotidiano quase confinado, praticamente circunscrito dos mais doces quereres.
Lá, naquele lugar que não merece nome e sobrenome, lugar que não merece definições, lugar onde a liberdade criativa-imaginativa prevalece sobre tudo e todos; lugar onde reside a atividade intelectual, a ponderação dos argumentos, a sobriedade nas atitudes. Terra de um chão com cheiro de amêndoas , um céu de sorvete de creme radiante. Neste sítio de mil-quereres, de organismos sabidamente vivos, reside Orfeu. O músico do futuro, da luz que revelará a existência humana num fôlego de um águia que procura na simplicidade a sua forma mais humana e verdadeira.
Não por acaso que este ser, mais parecido com um pássaro de sua terra indefinida, procurou dar um salto em busca do autoconhecimento. Este pássaro alado, que possui graça e elegância, não tem medo do desenlace, do óbito; o pássaro comprou um certo bilhete no trem da liberdade, em direção a vida e com parada na estação espanhola onde reside outro ser com o dom de iludir.
Lorenzo, o Pássaro: vinte e poucos anos de uma sensibilidade, impermeabilidade, sutilezas, flutuação. São anos de um universo musical e harmônico das esferas, este tempo em que a gravidade sempre foi zero em sua terra, em sua alma. As calças caídas, quase em busca do primeiro pavimento na esquina de um lugar qualquer; o sorriso largo, infantil, os gestos expansivos que falam por si só, a barba na sensação de um espelho quase maduro.
O Pássaro comprou o bilhete de ida, despejou o bilhete de volta no mar dos deuses marinhos onde reside um mundo sem fronteiras que lhe dirá a hora fatídica da volta. Num voo rasante, ele se da conta que já está lá, mesmo sem estar, pois crê piamente nos cosmos em que sua vida entoará nos próximos tempos. Um café observando o horizonte criterioso da Puerta de Acalá, uns passos vagos com o caderno e a caneta em mão na Plaza Mayor, e o violão na mão em todo cerne da capital espanhola.
Ele desperta desta insônia sonhadora e apercebe-se de tudo que necessita – alegria, vida, tempo, eternidade. O avanço na sua busca própria, no desdobramento dom quixoteano que possa ocorrer; o pinote, a curveta, a cambalhota, o salto ululante e distraído - já está praticamente no momento da partida. A imersão na profundeza da revolução será a expulsão, a descarga, a evacuação do dito Pássaro, redito, por ainda não dito: Lorenzo.
Lorenzo, o Pássaro!
O olhar de um certo fruto maduro
Quase uma tentativa de um caminhar lento, tranquilo
O olhar denúncia, o gesto ratifica e o coração finaliza
Assim, mais que mais
Assim, mais por demais
Assim, ele! ELE!
Esse fruto novo, maduro, quase um
HOMEM
Quase um ser pronto e acabado
Contraditoriamente quase...
Entre as paixões, entre as terras vividas e habitadas, entre ele por ele mesmo:
Este amigo está pronto para sair livre como um pássaro prodigioso
Um pássaro que busca o ar livre, puro
Um pássaro de uma insanidade anárquica:
Ele, o PÁSSARO,
quer paz, quer a supremacia dos sentimentos
Ele prevalece sobre os demais, voa mais alto que toda sua espécie!
O som esvai-se por suas asas, por meio de seu voo transviado,
Cheio de vida, de viver!
Ele busca algo, encontra o ar – o puro ar!
Não precisará de mais nada que não seja essa paixão fervorosa pela calmaria e
LIBERDADE
Sob o céu do velho continente ele abrirá caminhos, viverá poesias e
MÚSICA!
Sim, senhores e senhoras:
Ele será a obra-prima de sua própria busca, do coração afogado pela vida, pelo amor e pela música –
Apresento-vos: Lorenzo, o Pássaro.

4 comentários:
Mais por demais bom esse a prosa! Nem quero saber o que te inspirou?! :) Mas nota-se que vem lá do fundo do teu coração, onde existe uma pesada fraqueza pelo pássaro! A poesia, nem é preciso de mencionar, também está fanfarrão, boa mesmo... Lendo entre as linhas, nota-se uma pequena influência! Será?! Abraços ternos!
velho, me senti pequeno diante de tanta poesia nas tuas palavras (na prosa, no verso, em tudo). e imensamente feliz por saber que conheceste o mesmo lorenzo que conheci. exatamente o mesmo!
estas tuas palavras - a assinatura do compromisso de vires tomar uma cerveja comigo em são borja ou santa maria (rafa_haas@hotmail.com).
grande abraço meu velho, e lindo, lindo blog!
Grande Lorenzo... Acabo de pegar o tel dele.. ta a 2hs e meia de salamanca.. Logo logo.. vamos juntar, novamente no velho continente a puttaria do canalha e a seriedade do Lorenzo.. Mas dessa vez ele virá puto ahahhahha...
P.S VOA TAMBÉM HUGO!!!
puto=canalha
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